O Natal e a Memória

A quadra natalícia surge, na minha memória, associada ao conto A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen, talvez por transmitir uma mensagem do Natal de todos os tempos e nos lembrar que esta época, tal como habitualmente a concebemos, numa sociedade que privilegia o consumismo em detrimento de uma vivência espiritualizada do nascimento de Jesus, alimenta uma imagem mascarada daquilo que é o Amor.

Em criança, este era um dos meus contos preferidos. Triste e realista, por focar o luxo de uns em contraste com a pobreza da Menina. Libertador, porque, entre tantas personagens cegas pelo suposto espírito natalício – representado pelas luzes, pelas mesas abundantes, pela azáfama alegre das famílias -, a Menina é a única que encontra a essência do Natal, ao reencontrar nos braços da Avó o conforto que o mundo lhe negou.

Todos os Natais, eu revisito a Menina e acompanho, uma e outra vez, o seu percurso, numa tentativa de o alterar e reescrever a história, de forma a integrá-la no interior de uma das casas abastadas e confortáveis com que tanto sonha. Vejo-a sair de casa, aos solavancos, com aqueles sapatos que pertenceram aos tempos felizes em que a Mãe não era uma lembrança fugaz. Vejo-a de olhos baixos, sem coragem para contrariar o Pai que a devia mimar e proteger, em vez de a entregar às ruas. Vejo-a caminhar, a custo, na neve e perder um dos sapatos. Sinto o frio que lhe entorpece os pés descalços e o meu coração começa a quebrar – não há ninguém, mas ninguém, que a ajude, que repare no sofrimento que a transfigura? O desalento que a invade, sempre que alguém a ignora, contagia-me. Perco a força anímica e o fio que me prende à realidade vai-se desvanecendo: as cores tornam-se indistintas e os ruídos, longínquos. Sento-me com a Menina – cujo nome desconheço, mas gostaria muito de conhecer – e, juntas, ora uma, ora outra, numa alegria que é só nossa, acendemos os fósforos mágicos para nos extasiarmos com as imagens que nos mostram: como postais ilustrados de um álbum antigo, desfilam ante os nossos olhos as mais belas árvores de Natal do mundo, os embrulhos mais brilhantes, as bonecas mais loiras e risonhas, as pantufas mais quentinhas, os bombons mais requintados, os perus mais tostados e as melodias mais harmoniosas. Sim, o mundo é perfeito, a vida é perfeita e a Menina entoa gargalhadas como nunca eu ouvi – e somos felizes!

Esgotamos as maravilhas natalícias e, entre os dedos da Menina, está o último fósforo. Aprendi a chama-lhe o “fósforo do último desejo”. Olhamos uma para a outra e algo em mim se desfaz, ao perceber que ainda não é hoje que a Menina vem comigo para casa – a casa dela é outra e chegou o momento da viagem. Então, sem me dar tempo de o evitar, a Menina risca o último fósforo e uma luz nunca vista invade o Céu. Uma estrela com cauda de cometa desce até nós e o vulto de um Anjo desenha-se em brilho. Os olhos da Menina dilatam-se até ao infinito. O Anjo estende-lhe a mão e ela oferece-lhe a sua. Olha para mim, dirige-me um sorriso que parece um abraço profundo e salta para o colo do Anjo. Fito o rosto do Anjo e reconheço-lhe os traços: a expressão bondosa que só uma Avó pode ter, refulgente de amor e compaixão. A estrela eleva-se e elas voam rumo à fonte do Amor primordial.

Quando os homens aparecem e me perguntam pela Menina, já não os vejo.

Onde está a Menina? Quem é a Menina? O que aconteceu à Menina? Perguntas ocas. A Menina está onde merece estar: a viver o eterno Natal, enroscada nos braços de Deus. A Menina era todos os meninos e meninas a quem é negado o verdadeiro Natal. A Menina foi vítima da tragédia que é ser-se pobre e negligenciado num mundo que celebra o nascimento de Jesus sem o viver com o coração.anjo_andersen

 

 

 

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Ricardo Reis: heterónimo e personagem

«São assim os labirintos, têm ruas, travessas e becos sem saída, há quem diga que a mais segura maneira de sair deles é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana.»

SARAMAGO, José (1984) – O Ano da Morte de Ricardo Reis, Lisboa, Caminho, pp. 199-200

 

https://pt.scribd.com/document/301898109/Ricardo-Reis-A-Existencia-Como-Labirinto-Do-Ser